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Considerações

a respeito da proposta teórico-metodológica

Essa proposta foi desenvolvida, experenciada e atualizada a partir de diferentes experimentações projetuais às quais ela foi submetida. Essas experiências ocorreram em contextos distintos, com pessoas diversas e propostas afins, com o objetivo de testar o seu desempenho e a sua compreensão por parte dos projetistas e de quem a tivesse utilizando (para detalhamentos mais aprofundados, buscar pela dissertação de mestrado "Design estratégico feminista: uma proposta teórico-metodológica operada no contexto da cidade" desenvolvida na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2023). A partir e por conta, também, dessas experimentações, se chegou a algumas conclusões, havendo a necessidade de que algumas considerações fossem pontuadas. Essas considerações e mais detalhes acerca dos movimentos operacionais e suas respectivas ferramentas sugeridas são descritas abaixo.

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A proposta apresentada necessita e exige um período de internalização do que se propõe, para ocasionar de fato uma transformação na visão de mundo de quem a adota. Por conta disso, o que se sugere é a utilização da mesma em contextos projetuais onde haja um prazo que comporte a operação de cada movimento projetual por, pelo menos, uma semana cada. Assim, é possível que os projetistas e colaboradores consigam mergulhar em cada um dos movimentos e executar, holística e atentamente, cada uma das posturas.

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A proposição de exercícios imaginativos e a formação de um espaço seguro para a criatividade pode vir a beneficiar o processo de operação dos movimentos, especialmente o imaginar e o praticar. A depender do contexto projetual, provocações fantasiosas podem fazer sentido, como por exemplo “e se isso fosse em Nárnia, como seria?”; “e se isso fosse em um desenho animado, como seria apresentado?” etc.

Há a necessidade de exercitar por diversas vezes e em diferentes contextos projetuais a adoção dessa metodologia, a fim de observar o seu desempenho e compreensão de seus operadores de forma constante, tornando-a cada vez mais habitual.

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Sobre o verbo escutar:

Esse verbo, de acordo com Diniz e Gebara, (2022) não há de carregar consigo um significado capacitista. Não se trata necessariamente de uma ação que envolva os ouvidos, mas sim, afetos, desobedecendo o seu sentido. Escutar caracteriza-se por compreender uma capacidade necessária para se deixar tocar por outras vidas. Ou seja, a escuta (atenta e ativa) é o que torna os projetistas capazes de aprender o que lhes é ininteligível por conta da sua distância com determinadas realidades. Só se escuta quando há um deslocamento social, quando se escuta uma polifonia de vozes e se permite ser permeado por elas e senti-las. Esse movimento busca escutar outras mulheres, suas perspectivas e vivências, isso porque o mundo patriarcal escuta apenas os seus pares, e é intrínseco ao feminismo buscar romper com esse padrão. 

Entre as ferramentas sugeridas para esse movimento, a Roda de Posiconalidade recebe destaque. Essa é uma atividade adaptada de Lesley-Ann Noel e Marcelo Paiva (2021) que tem como objetivo “auxiliar designers e pesquisadores a refletirem sobre suas identidades e composição de suas equipes antes de iniciarem seus trabalhos” (p. 67). Esse foi um modo encontrado por eles de incentivar a participação e reflexão das pessoas envolvidas em um projeto a pensar sobre suas facetas e identidades a partir de fatores visíveis e concretos, como raça, gênero e idade, e outros mais subjetivos e com menos visibilidade, como grau de educação, classe social, habilidades e desabilidades. Além disso, essa prática tem como objetivo escancarar identidades e diferenças presentes, a fim prevenir a construção de equipes e iniciativas excludentes ou preconceituosas. Quando em uso, os participantes refletem sobre 12 fatores que compõem a sua identidade. Os doze fatores contemplados se configuram como cor, raça e etnia; idade; sexo, identidade de gênero e orientação sexual; habilidades e desabilidades; estado civil; status familiar (parentalidade); em que bairro cresci; classe social quando criança; em que bairro moro hoje; classe social hoje; nível de educação; e o que faço para viver. Para o seu exercício, não é necessário preenchê-la em determinada ordem ou, ainda, responder algo com o qual não se sinta confortável. Com essas informações, se pode observar de onde partem e o que caracteriza as perspectivas, contribuições e construções dos projetistas e demais participantes, delineando suas posicionalidades, identidades e visões de mundo, além de delinear as interseccionalidades presentes no grupo.  Material disponível.

Sobre o verbo compartilhar:

Essa operação envolve o compartilhamento de impressões acerca do que se escutou, imaginou ou praticou no contexto trabalhado, em um processo de análise, compreensão e reverberação do que foi entendido, a depender da sequência de execução dos movimentos propostos. O feminismo, como trazido pelas autoras, exige que quem o pratica se coloque em um constante estado de partilha, dedicando-se às causas que tocam o movimento. Por conta disso é que se faz imprescindível o compartilhamento de histórias de mulheres, permitindo que suas maneiras de ver e sentir o mundo sejam ouvidas e expostas à sociedade. Se no outro movimento a proposta principal era de escutar, na operação de compartilhar o que se pretende é dialogar, para que através do diálogo se possa testemunhar e registrar, coletivamente, diferentes realidades, compreensões e pontos de vista.

Entre as ferramentas sugeridas para esse movimento, o Mapa Conceitual é aqui destrinchado. O desenvolvimento de um mapa conceitual consiste na utilização de recursos gráficos e diagramas para organizar, visualmente, relações entre conceitos, temas e ideias, podendo apresentá-los de maneira hierárquica e grupal, ou não.  Material disponível.

Sobre o verbo imaginar:

Imaginar é uma operação intrínseca à ação feminista, pois o feminismo exige que se imagine uma nova realidade o tempo todo. Esse movimento trata de pensar e agir sobre possibilidades futuras, sobre mudanças desejáveis e necessárias. Para isso, é essencial desimaginar o mundo patriarcal e imaginar algo novo, novas possibilidades de organização coletiva, social e territorial. Esse verbo relaciona-se à ação de recriar (verbo esse também mencionado na obra de Debora Diniz e Ivone Gebara, 2022), pois trabalha sob uma perspectiva de criar uma nova realidade, onde se questiona e não se aceita os modelos impostos pelo patriarcado. Ou seja, o imaginar parte de realidades ainda não conhecidas, pois não são vivenciadas, são realidades sonhadas. Portanto, é um momento de reconstrução da realidade, um mundo com valores vividos diferentemente que, com base nos diálogos desenvolvidos, nas escutas realizadas ou nas práticas identificadas, abre espaço para a criatividade e imaginação de algo diferente. Para isso, é necessário que ocorra o reconhecimento do que já existe para que seja possível repensar essa realidade e, assim, imaginar outros futuros.

Entre as atividades e ferramentas sugeridas para esse movimento, está o desenvolvimento de Cenários Futuros. A elaboração de cenários futuros é uma prática bastante recorrente nos processos projetuais de design estratégico. De acordo com Manzini e Jégou (2006, p. 193), os cenários são um “conjunto de visões motivadas e articuladas, que visam catalisar as energias de diversos atores envolvidos no processo de design, para gerar uma visão comum e desejavelmente orientar suas ações na mesma direção”. Sendo assim, é possível dizer que a construção de cenários tem como principal objetivo trazer à tona as mais variadas possibilidades de futuro, levando em consideração suas incertezas, não trabalhando com uma previsibilidade evidente. (REYES, 2016). Sobre isso, Meroni (2008) complementa afirmando que os cenários são a forma pela qual os designers estratégicos e os demais participantes do processo projetual transformam suas visões e aspirações em hipóteses possíveis, traduzindo essas informações em conhecimento perceptível. Esse movimento tem como propósito a construção de cenários futuros com base na realidade do presente, visando a tangibilização de um futuro baseado na esperança feminista.

Sobre o verbo praticar:

Esse verbo escancara, em coro plural, o testemunho do que se foi capaz de compreender através da pratica dos outros verbos ou, também, do momento projetual vigente. Ele é compreendido como uma extensão do verbo falar, citado pelas autoras no livro. Segundo elas, “falar é agir pelo testemunho, é mover a palavra valente, aquela que diz a verdade e desafia o poder”. Praticar então seria expandir a palavra para além do discurso (que, muitas vezes por si só já é extremamente desafiador). Ou seja, é confrontar com atitudes. Isso porque é comum que haja um desinteresse explícito em escutar a fala das mulheres, logo, necessário se faz confrontar com a prática dessa e de outras atitudes. Diniz e Gebara (2022) também afirmam que falar (e agora fazer, desfazer, praticar e exercitar) são maneiras de fazer circular outras formas de vida, as novas possibilidades de mundo. Eles são operados em nome das mulheres, objetivando essa mudança de paradigma e revolução social. 

Esse momento é, então, sobre testemunhar, experimentar e colocar em prática o que foi escutado, compartilhado e imaginado. Diz respeito a pensar em práticas feministas que já existem e merecem ser reverberadas, dentro do contexto em que se projeta, ou, ainda, práticas passíveis de adoção com base na realidade vivida ou a partir do que se apreendeu acerca dos outros movimentos operacionalizados. Logo, como atividade sugerida há, novamente, o diálogo, o registro, a listagem e a utilização de modos e meios de prototipagem que se encarregam da documentação das práticas apresentadas, discutidas e propostas. 

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