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Design estratégico feminista

uma proposta teórico-metodológica

O sistema patriarcal sob o qual a nossa sociedade se organiza reflete, nas mais diversas esferas, seus modos de opressão. No design estratégico não é diferente. 

Não é preciso aprofundar-se em estudos densos sobre a sociedade e sobre o campo do design estratégico para se chegar a essa conclusão. O sistema patriarcal é uma instituição que tem como sua principal característica a dominação masculina em todas as esferas da sociedade: nas famílias, nas religiões, nas políticas, nas culturas, nas economias, nas pesquisas, nas mídias e em tantas outras. O patriarcado tem como principal característica a normatização da superioridade masculina em relação a todas aquelas outras pessoas que não se enquadram no padrão de masculinidade determinado pelos homens, sendo eles a sua base estrutural.

Nos estudos em design estratégico, o mesmo acontece. Sua base referencial é majoritariamente dominada por uma homogeneidade de vozes e lentes que reverberam as ideias e concepções acerca desse campo, sendo possível observar que suas propostas podem vir a falhar quando se trata de representatividade de gênero e perspectivas situadas. Com isso, se percebeu a necessidade de adoção de uma perspectiva que buscasse fugir ao padrão heteronormativo, europeu, branco e machista que há nos processos metodológicos produzidos pelo design estratégico. Para isso, recorreu-se ao feminismo. De acordo com bell hooks (2018), recorrer ao feminismo significa buscar a esperança de um futuro livre das amarras do patriarcado, e é a partir dessa constatação que surgiu essa proposta.

 

O feminismo é interpretado nesse contexto como uma epistemologia, ou seja, um modo de produção de conhecimento, uma lente utilizada para ver o mundo sob um novo ponto de vista, diferentemente daquele conhecido e praticado ao longo de toda a história. Partindo dessa compreensão, é possível dizer que a epistemologia feminista busca criticar a ciência canônica, feita exclusivamente por homens, e incluir em suas produções as perspectivas de grupos subalternos e oprimidos, como as mulheres (WILLIANS, 2016).

A adoção do feminismo como base para a construção de conhecimento em design estratégico busca colocar em debate a falta de pluralidade e representação das mulheres no âmbito projetual desse campo e instigar a busca por formas de projetar que questionem e contraponham os estereótipos existentes (muitas vezes, inclusive, reproduzidos e reforçados pelo design). Além disso, busca contribuir também para a construção de projetos que tenham como objetivo central a construção de relações sociais mais justas. 

 

Embora seja uma característica do design estratégico trabalhar com uma diversidade de atores em seus contextos projetuais e, ainda que alguns dos autores referência na área trabalhem sob uma perspectiva social de pluralidade e de diálogo coletivo (ZURLO, 2010; MANZINI; 2008), suas propostas, de maneira geral, não trazem como abordagem central a perspectiva e experiência das mulheres. Tendo isso em vista, a adoção do feminismo como um paradigma epistemológico para o design estratégico implica pensar na atividade projetual a partir da vivência de grupos marginalizados e oprimidos pelo patriarcado, em especial as mulheres.

Tendo isso em vista, as práticas de design articuladas sob uma epistemologia feminista devem englobar as seguintes ações: colocar em primeiro plano as vozes dos grupos marginalizados pelo patriarcado; estimular, dentro dos projetos, a escuta, o diálogo, a interação e a participação ativa dessas pessoas; evitar a estereotipação e as suposições; e questionar as estruturas dominantes. Logo, toda e qualquer ação projetual do design estratégico desenvolvida a partir desse ideal epistêmico visa romper, estrategicamente, com o status patriarcal dominante em seus projetos, desconstruir as opressões vividas pelas mulheres, trabalhar pela diversidade de corpos, fontes e ferramentas e operar suas propostas com o objetivo de desenvolver novas possibilidades de organização social.

Considerando a necessidade do desenvolvimento de novas abordagens, ferramentas e metodologias que revelem valores
e posturas que não estão presentes dentro dos paradigmas dominantes das práticas convencionais de design,  é que se propôs a
Metodologia de Design Estratégico Feminista.

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Entre as diversas pensadoras feministas que inspiraram essa proposição, a obra de Debora Diniz e Ivone Gebara recebeu destaque e aprofundamento. Em seu livro intitulado "Esperança Feminista" (2022), as autoras apresentam uma proposta de um agir cotidiano feminista, que tem como objetivo vislumbrar o mundo pela perspectiva do feminismo na prática, com base em ações concretas. Diniz e Gebara sugerem que essa prática deve começar a partir de um estranhamento da conjugação patriarcal dos verbos naturalizada na sociedade. Elas utilizam a lente feminista para, assim, construir, por meio de doze verbos políticos, poéticos e ativos, uma “desobediência criativa ao patriarcado e suas tramas” (DINIZ; GEBARA, 2022, p. 9). São eles: escutar; perguntar; aproximar; acalentar; recriar; imaginar; lembrar; desobedecer; compartilhar; falar; reparar; e celebrar. Sob essa premissa, elas indicam que é essencial que se altere o modo de agir no presente, para que se construa um futuro pleno e repleto de esperança para as mulheres (DINIZ; GEBARA, 2022) e, também, para as outras pessoas que acabam por sofrer nas mãos do patriarcado.

Essa compreensão e abordagem por meio dos verbos é interessante ao design estratégico pois os verbos implicam e indicam uma ação, e o que se propõe aqui é, justamente, a adoção de novas lentes para a ação projetual, a fim de que ela se dê de maneira distinta da convencional. Como a ação projetual do design estratégico exige um fazer, entende-se que o mesmo comporta um agir feminista e pode vir a atuar como um agente de implementação e disseminação desse olhar. A respeito de um modo pelo qual o design assumirá essa postura feminista no seu modo de agir e projetar, se entendeu que para tal havia a necessidade de desenvolvimento de uma metodologia projetual que tivesse em seus fundamentos essa lente. Isso ocorre pois metodologias de design englobam e agem sob princípios e práticas que orientam os processos projetuais, logo, a adoção do feminismo propõe que os designers se tornem conscientes de seus valores feministas e, como consequência, isso venha a afetar suas escolhas projetuais.

Entre os verbos discutidos e apresentados pelas autoras em sua obra, foram selecionados quatro para compor um conjunto de movimentos operacionais do processo de projeto, relacionados à prática projetual em si, indicando uma atividade de interação e relação com o contexto no qual se quer intervir. Cada um dos verbos de operação metodológica requer que determinadas ações sejam colocadas em prática, e implicam, também, o uso de algumas ferramentas, pois entende-se que, para além do desafio operacional, é necessário que sejam oferecidos caminhos e propostas a serem seguidos

Além dos movimentos operacionais, por embasar-se na epistemologia feminista, se faz necessário trabalhar também com verbos que indiquem uma postura ética sobre a ação projetual, que tem a prerrogativa de inserir valores feministas no processo de projeto. São atitudes que fundamentam a ação, acompanhando os verbos de operação metodológica a cada movimento. Para isso, foram selecionados outros 6 verbos com base em Esperança Feminista (2022). Eles tem sua função basal em servir de guia para a ação sob os princípios do feminismo, protagonizando um reforço constante acerca dos valores, dos questionamentos e das condutas necessárias que caracterizam a metodologia e a ação de quem projeta como feminista, tendo como objetivo fazer com que o projetista relembre a maneira como precisa se posicionar diante de cada um dos movimentos de operação metodológica. É por conta disso, inclusive (como é possível observar na imagem abaixo), que os verbos de postura ética são representados visualmente circundando cada um dos movimentos operacionais, reforçando o fato de que as posturas devem ser revisitadas a cada movimento de ação projetual executado, a fim de enfatizar essas questões.

Movimentos operacionais:

escutar; compartilhar; imaginar; e praticar (esse último não mencionado pelas autoras dessa forma, mas interpretado como uma extensão do verbo falar).

Posturas éticas (feministas):

celebrar; perguntar; assombrar; aproximar; lembrar; e cuidar (esse também não mencionado pelas autoras dessa forma, mas interpretado e adaptado do verbo acalentar).

Para uma melhor compreensão, essas e outras questões são mais bem aprofundadas na seção que descreve a utilização da metodologia e o seu visual.

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Sobrenós

Giulia Locatelli

Mulher branca, cisgênero, heterossexual,

ativista de design e feminista. De classe econômica privilegiada, com moradia em local digno, com acesso a uma alimentação nutritiva e a bens culturais diversos. Designer, mestra

em design e pesquisadora.

Sobre nós-01_edited.png

Karine Freire

Mulher branca, cisgênero, bissexual, yoguini, ciclista e ativista de design. De classe econômica privilegiada, com moradia em local digno, com acesso a uma alimentação nutritiva e a bens culturais diversos. Doutora em design, professora e pesquisadora.

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